26 julho, 2008

Doutor, eu ví na internet ...


No passado o médico era a principal fonte de informações para seus clientes. O que o doutor falava era tido como verdade absoluta. Alguns, um pouco mais desconfiados, recorriam a outras fontes: livros, enciclopédias de saúde, revistas e almanaques. Ainda não era moda a consulta de outro profissional para uma "segunda opinião".

Hoje as coisas mudaram. E como mudaram. Com a relação médico/paciente fragilizada pela medicina que se pratica atualmente, o paciente, que muitas vezes nem sabe o nome do médico, não confia em mais ninguém e recorre a vários profissionais numa interminável peregrinação por vários consultórios procurando uma resposta para as suas angústias e solução para os seus problemas.

A rede mundial de computadores colocou um complicador a mais nesta delicada questão. O acesso à internet vem se democratizando progressivamente e hoje está disponível nas residências, empresas, bibliotecas, escolas, cyber-cafés e outros locais públicos.

Com a internet qualquer pessoa pode acessar milhares de informações sobre qualquer assunto. E em se tratando de medicina, tudo, mas tudo mesmo, está ao alcance da pontas dos dedos de qualquer um em questão de segundos. É aí que mora o perigo. Ao lado de informações realmente úteis, mais de 50% do que se publica na internet é origem duvidosa e não é fácil separar o joio do trigo.

O médico deve estar preparado para lidar com mais este problema. É bom que o paciente tenha o máximo de informação sobre sua enfermidade. Uma pessoa bem informada aceita melhor a medicação e os procedimentos, muitas vezes desconfortáveis e dolorosos, que o caso requer. Hoje é cada vez mais difundido o conceito de decisão compartilhada. O médico explica tudo ao paciente, ou aos responsáveis em se tratando de menores e incapazes, diagnóstico, prognóstico, opções de tratamento e, juntos, decidem sobre a conduta a seguir. O doente abandona a passividade e assume a co-autoria na condução do processo terapêutico.

O médico deve procurar informar-se continuamente para atender às demandas dos clientes. Ele deve estar sempre um passo à frente. Já não basta apenas a leitura de alguns livros e revistas médicas e freqüentar congressos e jornadas. É necessário também dominar a internet, conhecer seus mecanismos de busca, saber encontrar a informação correta e, acima de tudo, saber analisar criticamente as informações encontradas. Deste modo, o excesso de informação deixa de ser um problema e passa à condição de aliado do médico na tarefa de bem cuidar da saúde do ser humano. (Autor: Dr. Nelcivone Soares de Melo. Médico. Ex-Presidente do CRM-GO).

Otimizando o uso de exames laboratoriais


Muito tem sido falado e escrito a respeito da excessiva utilização dos exames de laboratório e do impacto dos mesmos nos custos crescentes da assistência médica. Por utilização excessiva entende-se o uso sem critério de exames de "rotina", a repetição de exames no mesmo paciente sem que haja um motivo razoável, a falta de observação das interferências que um procedimento diagnóstico pode ter em outro, a solicitação de exames sem um nexo efetivo com o quadro clínico do paciente ... a lista seria longa.


A relação custo/benefício de cada exame deve ser analisada individualmente. Antes de preencher o pedido de exame o médico necessita conhecer o quanto cada exame custará econômica, física e emocionalmente ao seu cliente. Embora os exames laboratoriais possam ser considerados uma fonte eficaz de informações, eles possuem limitações que são inerentes aos métodos e procedimentos utilizados. Consequentemente, a solicitação de exames deve ser individualizada e restrita aos testes relacionados ao quadro clínico do paciente. A solicitação aleatória de exames é de pouca valia no escla-recimento diagnóstico e muitas vezes traz mais confusão. É mais útil a solicitação de poucos exames criteriosamente selecionados do que de muitos ao acaso. Uma história clínica minuciosa e um exame clínico bem elaborado ainda são os pilares de uma boa assistência médica. Um médico competente usa o laboratório para confirmar ou excluir uma hipótese diagnóstica construída com base no seu raciocínio clínico. O médico inexperiente muitas vezes utiliza o laboratório em substituição ao exame clínico e, com isto, sacrifica seu cliente, onera os custos da assistência médica e ... erra mais. Muitos médicos praticam a chamada "medicina defensiva" e solicitam mais e mais exames visando se proteger de futuras acusações de imperícia ou negligência.


Antes de requisitar um exame de laboratório o médico deve responder às seguintes perguntas:

1. O resultado deste exame pode mudar meu diagnóstico, prognóstico ou tratamento ?

2. O resultado deste exame permitirá que eu tenha um melhor entendimento da doença apresentada pelo meu paciente ?

3. Que benefício este exame trará para meu paciente ?


O médico deve ter um canal de comunicação direta com o laboratório através de uma via da mão dupla entre ele e o patologista clínico. O patologista clínico atuando como um consultor com relação aos exames laboratoriais e o clínico proporcionando um "feedback" ao patologista. Quando surgir qualquer dúvida sobre exames ou resultados conflitantes, o médico requisitante deve imediatamente entrar em contato com o patologista clínico para discussão do caso. Um resultado inesperado é, na maioria das vezes, considerado "erro do laboratório" quando na verdade ele pode estar sinalizando para um fato clínico relevante.


Por outro lado, o laboratório não é infalível e os resultados incompatíveis com o quadro clínico do paciente devem ser confirmados, preferencialmente, no mesmo laboratório onde foram realizados. A prática de se repetir o exame em outro laboratório em nada contribui para a melhoria da qualidade do serviço e muitas vezes traz uma enganosa sensação de tranqüilidade. O médico pode ficar satisfeito com o segundo resultado quando de fato o primeiro era o verdadeiro. O inverso também pode ocorrer e, neste caso, o primeiro laboratório ignorará uma falha por ele cometida. Conclui-se que, para uma boa qualidade de assistência, é sempre importante o diálogo entre o médico e o laboratório. (Autor: Dr. Nelcivone Soares de Melo. Médico Hematologista e Patologista Clínico. Diretor do Laboratório Atalaia.)